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Voluntariado, o Tempo que Conta
Nascimento desafia a mobilidade social
Adolfo Mesquita Nunes, keynote speaker, recordou a importância do voluntariado
Evento

Nascimento desafia a mobilidade social

Numa reflexão sobre voluntariado e cidadania, Adolfo Mesquita Nunes destacou a necessidade de reforçar o papel da sociedade civil e alertou para os riscos de desigualdade agravados pela competitividade, inteligência artificial e afastamento de diferentes realidades sociais.

O vice-presidente do Conselho de Administração da Galp, Adolfo Mesquita Nunes, subiu ao palco do Auditório Américo Amorim para deixar um alerta: há sinais de que o contexto de nascimento está a voltar a pesar de forma decisiva nas oportunidades no mercado de trabalho, contrariando o ideal de mobilidade social.

O papel do voluntariado numa sociedade cada vez mais desigual e fragmentada esteve no centro da palestra subordinada ao tema “Voluntariado, cidadania e o tipo de sociedade que queremos construir”. A reflexão partiu de uma memória pessoal de Mesquita Nunes – uma conversa com a falecida amiga Teresa Caeiro, deputada do CDS-PP –, para sublinhar a ideia de que o verdadeiro propósito de quem intervém na vida pública é tornar o contexto de origem “o mais irrelevante possível”. “Pego nesta ideia porque, fruto de várias circunstâncias, me parece que estamos a caminhar para uma sociedade em que o contexto de nascimento se está a tornar outra vez mais importante e incapacitante. O contexto familiar será sempre relevante porque molda, mas tem mesmo de se tornar menos significativo”, afirmou.

Apesar de reconhecer que Portugal consolidou um modelo de Estado social capaz de apoiar os mais vulneráveis, o jurista alertou para a existência de “uma mobilidade social reduzida”. Na sua perspetiva, este cenário tem sido acompanhado por uma tendência para atribuir ao Estado a responsabilidade quase exclusiva de corrigir desigualdades, o que contribui para um afastamento das responsabilidades individuais e coletivas. Chamou-lhe “um efeito de adormecimento” face ao dever de evitar que alguém se torne prisioneiro de um contexto para o qual nada contribuiu.

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Voluntariado como antídoto

É neste enquadramento que o voluntariado ganha nova centralidade, segundo Mesquita Nunes. Mais do que uma prática solidária, surge como um instrumento capaz de contrariar a fragmentação social, promovendo o encontro entre pessoas de diferentes origens e reforçando uma cultura organizacional mais consciente e responsável. “O voluntariado é um dos instrumentos que temos à nossa disposição. É um antídoto importante para aquilo que vivemos atualmente, devido à cultura interna que cria e à empatia que nos obriga a ter pelo outro”, justificou.

Se continuarmos nesta procura constante de eficiência e competitividade, que é importante, podemos estar a dificultar a vida profissional de quem vem de outros contextos.

Sem questionar o papel do Estado, Mesquita Nunes lembrou que muitas das suas funções resultam de uma delegação coletiva. Quando esse modelo se revela insuficiente, torna-se necessário encontrar novas formas de participação e corresponsabilização. “As funções do Estado são nossas”, afirmou, reforçando a importância do envolvimento cívico.

Os desafios estruturais agravam-se com o envelhecimento da população, o aumento da esperança de vida e a pressão sobre os sistemas sociais. Problemas que, afirmou o orador, não se resolvem apenas com mais recursos financeiros. Neste contexto, a sociedade civil é chamada a assumir um papel mais ativo.

Risco de pobreza

Também no mercado de trabalho se acentuam fatores de desigualdade. Os perfis mais valorizados – com experiências internacionais, formação adicional ou forte envolvimento extracurricular – são frequentemente acessíveis apenas a quem parte de contextos mais favorecidos. “Se não tivermos cuidado, estamos a desenhar critérios que excluem à partida”, alertou Mesquita Nunes, apontando ainda para o risco acrescido do uso de inteligência artificial nos processos de recrutamento, com decisões mais eficientes e menos onerosas, mas não necessariamente mais justas. “Se continuarmos nesta procura constante de eficiência e competitividade, que é importante, podemos estar a dificultar a vida profissional de quem vem de outros contextos. Isto é particularmente relevante nos recursos humanos – os currículos acabam moldados para um certo tipo de pessoas”, acrescentou.

Num momento de transformação tecnológica profunda, Mesquita Nunes frisou que há dimensões que escapam ao cálculo e que devem continuar a orientar as decisões. “Convocamos critérios como empatia, amor, solidariedade, justiça ou equidade. Numa sociedade cada vez mais automatizada, essa dimensão pode perder-se”, avisou, antecipando o surgimento de novos focos de pobreza e vulnerabilidade, ligados tanto ao acesso desigual à tecnologia como ao impacto no emprego e à necessidade crescente de requalificação.

A par destas mudanças, o responsável destacou ainda uma transformação mais silenciosa na forma como a sociedade se organiza. “Cada vez mais fechados em bolhas individuais, alimentadas por algoritmos e conteúdos personalizados”, os cidadãos afastam-se do contacto com realidades diferentes. “Estamos a deixar de conhecer o outro”, concluiu Mesquita Nunes.